Por que as crianças não estão cantando?

David D. Thornburg, Ph.D., Director
The Thornburg Center

(Portuguese translation by Norma Godoy)
DThornburg@aol.com

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Há alguns anos atrás participei de uma reunião de escolas de um distrito da Califórnia. A Superintendente do distrito entrou em nossa sala e disse: "Acabei de visitar cada uma das escolas do distrito. Por que as crianças não estão cantando? Por que não estão dançando?

E então ela saiu.

Minha reação foi imediata e duradoura. A Superintendente havia tido uma clara compreensão de um grande quadro. Ela percebeu a importância das escolas como locais que educam e propiciam meios naturais de aprendizagem. Ela demonstrou uma acurada percepção da importância dos modelos pedagógicos que servem como estrutura das múltiplas formas de aprendizagem.

Entretanto, o que mais me impressionou nela foi sua verdadeira dedicação às necessidades das crianças de sei distrito. Por isto, a partir deste momento, ela passou a ter não apenas meu respeito, mas também total apoio.

Tive razões para pensar neste encontro durante minha recente viagem ao Brasil, em maio de 1996. Além de proferir uma série de palestras sobre Tecnologias da Educação durante uma conferência internacional, em São Paulo, visitei uma escola da rede pública daquele estado. Eu já havia estado nesta mesma escola há 5 ou 6 anos atrás.

Lá, como na maioria das escolas públicas brasileiras, havia uma evasão em média de 80% dos alunos, que vêm sempre de famílias pobres. Na verdade, tais famílias não têm condições de colocar seus filhos numa escola particular, destinada às crianças das classes média e alta brasileira.

Em minha primeira visita fiquei impressionado pelo esforço demonstrado pela escola em conseguir uma melhoria na qualidade da educação de seus adolescentes, especialmente porque tal qualidade significava a melhor chance que eles poderiam ter para fugir de sua triste situação econômica. No restaurante, por exemplo, havia uma grelha e os alunos podiam comer à vontade carne e feijão, acompanhado de suco de frutas naturais. Isto (para muito dos alunos) era basicamente a única refeição verdadeira que faziam a cada dia. Havia também, à disposição dos alunos, um dentista e uma enfermeira, o que lhes garantia atendimento às questões básicas de saúde.

Visitando suas instalações físicas conheci, no fundo do prédio, o laboratório de informática, onde a linguagem LOGO era trabalhada. Esta linguagem continua sendo uma ferramenta bastante popular no Brasil. O laboratório era decorado com trabalhos dos alunos e podia-se perceber que eles realmente gostavam de ter a oportunidade de expressar sua criatividade enquanto desenvolviam estruturas do pensamento lógico, trabalhadas através do LOGO, durante a construção de seus projetos.

Os alunos deslocavam-se livremente pela sala, interagindo com seus colegas e usando muitas cores e sons em seus trabalhos.

As demais salas de aula existentes na escola contrastavam fortemente com o laboratório de informática. Suas paredes eram desprovidas de trabalhos dos alunos e os modelos pedagógicos que norteavam a prática escolar eram similares àqueles trazidos ao país pelos portugueses, em 1500, durante o período colonial.

Como visitante, considerei isto como um fato trágico. O Brasil é o país mais sensual que já visitei. Ali as cores são fortes e vivas. Os sons são incríveis. As pessoas deslocam-se com graça. O movimento é uma questão tão essencial nesta cultura que a língua portuguesa, falada no Brasil, é muito mais uma linguagem gestual do que apenas baseada em sons.

Esta cena de uma rua em Salvador demonstra as cores típicas encontradas em muitas casas neste país. As cores fortes também refletem-se no trabalho de artesãos brasileiros e, especialmente, na diversidade de plantas tão coloridas encontradas por toda parte do país.

Apesar disto, cores, sons e movimentos estavam ausentes de cada sala de aula daquela escola, à exceção do laboratório de computação.

A sensação era de que a escola encontrava-se totalmente dissociada da realidade cultural do Brasil.

Ao ver a escola, compreendi porque a taxa de evasão era tão alta. Era como se ali, nada tivesse relação com a população que a frequentava.

Naquela visita conversei com os professores como os alunos eram entusiasmados e motivados no laboratório de informática e quão passivos e desinteressados eram em sala de aula. Os professores acabaram por compreender que, na verdade, tal fato pouca relação tinha com os computadores e sim com a estrutura das atividades propostas. As atividades de sala de aula eram centradas no professor enquanto que as de informática, nos alunos. À medida em que pudemos aprofundar nossa conversa, os professores perceberam que podiam integrar as atividades curriculares ao trabalho do laboratório de informática, permitindo deste modo que a tecnologia não fosse tratada como um tópico isolado.

Com boas recordações dos momentos em que ali passei, desejei um dia voltar à escola. Achei que, com o passar do tempo, os professores teriam a possibilidade de mudar sua metodologia de modo que os alunos passassem a sentir-se mais atraídos pela escola.

Eu não estava preparado para o que vi em minha segunda visita.

Ainda havia atendimento médico e dentário, mas a grande grelha havia desaparecido do restaurante (embora os alunos ainda continuassem a receber sua refeição). O laboratório de informática estava desprovido de qualquer trabalho dos alunos e, as atividades que eram neles centradas, haviam sido substituídas por outras que se estruturavam num currículo vertical.

Vaguei pelos corredores cinzentos, percorri as também cinzentas salas de aula, numa tentativa vã de encontrar indícios de que jovens frequentavam aquele local durante um certo período do dia. Não havia cores, não havia arte, não havia música... Também não encontrei, em qualquer lugar da escola, um gracioso movimento. As frias paredes refletiam as cores das salas de aula: um cinza desolador.

Fui até a única sala equipada com TV e vídeo. Vi um solitário conjunto destes equipamentos atrás de grades, como numa cela.

Enquanto apanhava minha câmara para fotografar tal sistema de segurança, suspirei fortemente. Uma pessoa da França, que me acompanhava, perguntou: "Não há luz suficiente?"

Eu simplesmente respondi: "Não é isso, não há visão suficiente".

Num espaço de poucos anos vi uma escola que tinha chances de um futuro diferente, adotar uma postura retroativa, o que sem dúvida traz grandes perdas para seus alunos.

Perguntei ao diretor sobre a taxa de evasão atual. É a mesma que havia encontrado há anos: 80%.

Então perguntei: "Por que as crianças não estão cantando? Por que não estão dançando?"


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